Do outro lado das teclas

Uma história a quatro mãos, separadas por um mar.

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Tempos passados

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    Não prometeu. Achou que não era necessário prometer...
    Ficou mudo e ela a esperar emudeceu também.
    O que fazer quando o silêncio chega?
    Qual atitude tomar? Há que dizer sobre o vácuo, a não existência?
    É preciso alguma manifestação, ou, o nada fala pelo tudo?
    Era o vazio completo. O tempo parou. Não ventava. Não havia ruídos.
    Parecia, enfim, que entraram numa espécie de fluido aonde o tempo, o som, o ante e o depois já não tivessem mais significado algum.
    O esquecimento rompera as barreiras do amor e se instalara entre dois seres que se adoravam.
    Havia espaço para aquilo? Para aquele silêncio?
    Espaço... Engraçado quando se fala do espaço para se definir a ausência.
    Os momentos são mesmo esquisitos e as palavras, muitas vezes, não conseguem mesmo expressar o vácuo.
    Ficaram ali não se sabe por quanto tempo. Para Ela pareceu uma eternidade.
    Esperando que ele prometesse o que ela mais queria ouvir:
    A certeza de perpetuar o que é imperpetuável – com a licença do neologismo.
    Sempre soubera que o amor dura para sempre, mas, quanto é o para sempre?

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    Num sei. Tu que és bom de mapas. Eu sou meio perdida de direções, sabes disso. Riu.
    E eu num sei... Menina perdida...
    Perdida, mas louca por ti.. Vem cá... Vamos aproveitar. Deixa o amanhã exatamente aonde ele tem que ficar: no a – m – a – n – h – ã!
    Disse isso já se jogando nos braços dele. Pendurou-se em seu pescoço e arrastou-o para o quarto.
    Mas... e a hora? Num tens que ir?
    Tenho, claro... mais tarde! Deixa que do relógio cuido eu e de mim cuidas você.
    Beijaram-se. Ela adorava a forma como ele a beijava. Tinha um carinho que ela reconhecia como o mais belo que ela já experimentara. O desejo dela era permanecer ali infinitamente. Sentia-se segura ao seu lado. Sentia-se completa. Esperara por séculos para encontra-lo. Tinha, agora, medo de perde-lo.
    Ela assustara-se, sim com o telefonema de São Paulo. Sabia de suas amizades pela metrópole e receava que ele partisse para encontrar as amigas queridas. Não gostava de transparecer, mas morria de ciúmes. Aliás, não gostava do ciúme, lutava contra ele e se odiava por deixar transparecer seu desconforto com a presença das outras...
    No meio do abraço, afastou-o ...
    Mas... vais a São Paulo?
    Mas, isso, de novo?
    Num consigo tirar da minha cabeça, fica me martelando...
    Vou, num disse que vou. Vamos!
    Mas, quando eu poderei ir contigo? Minha vida nessa correria...
    Vamos quando puderes ir e pronto! Oras, para com essas coisas.
    Desculpe, sou mesmo uma boba... Infantil...
    Então, vem cá, minha boba. Dá cá outro beijo que agora, eu que digo: de ti cuido eu. Quero aproveitar ao máximo esses nossos momentos juntos. Afinal, como tu mesmo disseste: sabemos que não depende de ti estar sempre por aqui.
    Ela não o beijou, ao contrário, abraçou-o. Um abraço apertado.
    Queria segura-lo para sempre. Ali, nos braços dela. Sofria com o medo da perda. Ao mesmo tempo em que sempre se declarara errante em seus passos sentimentais, não queria deixa-lo partir.
    Meu amor, adoro você, muito mesmo, demais da conta, viu? Promete para mim que nunca esquecerás disso. Promete vai..
    E preciso prometer?
    Promete, por favor...


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    São Paulo? 11 é São Paulo?
    É.
    Estranho. Muito estranho. Talvez engano.

    Sim?
    ...
    Não acredito, compadre! Tás em São Paulo...
    ...
    Vieste sozinho?
    ...
    Ah ah ah. Sim, lembro-me.
    ...
    Pois é.
    ...
    Estou.
    ...
    Não, homem, não dá. Agora não dá.
    ...
    Negócios, claro. Importantíssimos.
    ...
    Ah ah ah. Não, não posso.
    ...
    Gostava. Já te disse que sim. Já tínhamos falado nisso.
    ...
    Atão anda cá ver. Vês logo do que é que se trata.
    ...
    Não, homem.
    ...
    Aí, talvez. Talvez de fim de semana.
    ...
    Não, de avião. Claro.
    ...
    Sim. Um Chevrolet Celta.
    ...
    É, é uma espécie de Corsa.
    ...
    Não, não dá. Mas eu telefono-te. A gente combina qualquer coisa.
    ...
    Atão vá, grande abraço.

    Ih, que olhos são esses?
    Se bem entendi, o senhor veio a negócios. Pode me dizer que negócios?
    Posso apenas dizer que são importantíssimos.
    Sei. E mandou seu amigo vir verificar. O quê? O negócio?
    Sim, o negócio.
    Olha lá!
    Agarrou-a e disse-lhe ao ouvido:
    Neste negócio, ninguém dá palpite a não sermos nós, ainda não percebeu?
    Então que coisa é essa de avião, de final de semana...
    Não podemos ir um final de semana ao Rio Grande do Norte?
    Para me mostrar para o seu amigo?
    Ok. Se é assim que você pensa, não vamos.
    Mas afinal, o que ele queria?
    Ah, uma velha promessa nossa de viajar pelo sul de carro.
    Ele tá indo?
    Sim. Falou com o meu irmão antes de vir, soube que eu estava cá e agora estava a desafiar-me.
    E você não vai? Isso não é promessa?
    Já sabe que não. Você não acabou de me dizer que vinha todos os dias?
    É. Se eu puder. Sabe que nem tudo depende de mim.
    Sei. Por isso perguntei.
    Então não vai?
    Não. Ouviu o que eu disse ou não?
    Tá.
    Agora me dá uma sugestão para hoje. A onde apontarei o Celta?

      |

    Venho, claro que venho, virei todas as noites a te assucrinar, a chatear-te e impedir-te o sono. Claro, ainda tens dúvida? Não largo do teu pé. Quando eu te disse, vem, não estava de brincadeira. Não acreditavas, não é mesmo. No fundo, tinhas sérias dúvidas se eu realmente te queria por essas terras e, mais, se iria desejar que aqui ficasses para sempre...
    Para sempre?
    É, para sempre. Sonho, não posso? Não posso sonhar?
    Disse isso, curvando-se sobre ele. Estava nessa hora, escanchada sobre o tronco dele. Ele deitado na cama, ela com as duas pernas traspassadas pelo seu tórax, apoiada em seus próprios joelhos. Beijou-o. Um beijo molhado, úmido, melado de desejo.
    Ele, num movimento rápido, inverteu a história. Rodopiou num golpe parecido com os que os judocas costumam dar em seus adversários na hora de virar o jogo, a luta, e colocou-a, agora, sob seu domínio. Agora, era ele que se escanchava sobre ela...
    Queres que eu fique aqui, para sempre? Como, se me contas sempre que aqui tu não ficarás para sempre. Que um dia irá ‘abrir o gás’ e irá ‘cair na estrada’? Bonito, falares agora de fincar raízes..
    Ela riu descompromissadamente. Risada solta, farta. Risada que era típica de sua natureza.
    Ora, ora... está me pondo à prova?
    Não, etou repetindo tuas palavras...
    Pois bem, quero que fiques, sim. Que fiques até o momento da gente, de nós dois , ouviu? De nós dois partirmos errantes... Não sei se te interessa, não sei nem se dará certo, não sei, basicamente, não sei, mas, desejo imensamente estar contigo... Nesse primeiro dia sozinhos um do outro, afastados um do outro, senti saudade, intensa, profunda. Saudade de tocar-lhe, de estar contigo ao alcance de meus toques. Sentia isso quando só te espreitava do outro lado da tela, do mar... Sinto agora muito mais fortemente porque, agora – repito -, agora já te toquei, já te provei, já te amei muito mais e, melhor, nesse mundo real. Mundo que tem cheiro, tem tato, tem gosto... Como haveria, agora, que já provei do fruto, deixar que partisse...
    Não, tu não vais, ficarás aqui, comigo, se tiver que partir, será comigo, ao teu lado. A partir de hoje, não és mais um homem livre. Estarás submetido aos meus domínios. Me apossei de ti. Pronto, é isso, tomei posse. Sou uma grileira, invadi... Era uma sem terra... Sem terra no terreno das paixões.. encontrei meu canto, não largo. Me desculpe, faço-te prisioneiro se preciso for...
    Ele ouviu tudo atentamente... Não acreditava no que ouvia. Estava mesmo falando sério? Tinha suas dúvidas ainda e, de mais a mais, alguém livre como ele, não haveria de se prender totalmente e incondicionalmente daquela forma à uma pessoa. Olhava para ela e refletia enquanto ouvia suas palavras...
    Foi quando tocou o telefone... O celular dele...
    Quem poderia ser, perguntaram-se os dois. Quem teria o número do celular dele.
    Correu para atender... Foi quando viu no visor... Prefixo onze... São Paulo...


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    Uma cadeira de dentista...
    O que disseste?
    Uma cadeira de dentista... é o que me vem à cabeça.
    Cadeira de dentista? Não estou entendendo...
    Você me faz lembrar uma cadeira de dentista!
    O QUÊ? – primeiro foram as duas almofadas, depois murros, depois... bem depois, ela estava debruçada sobre ele agitando o braço direito mais uma vez, sem cuidar do risco que corria, ao se exibir de peito aberto.
    Larga-me, pára!
    Mas ele se servia dos frutos desbocadamente. Avidamente, como se a noite tivesse sido apenas um prenúncio de festa.
    Olha as horas!
    Cale-se e me beije.

    Como é? Ainda bebe café comigo?
    Só se fôr rápido. Tenho que ir pegar os meninos.
    Claro. Café. Café. Café. Estou na terra do café e não beberia os meus cafés. Ah, mas espera. A máquina. Lembra da máquina?
    Pois é. Até comprámos café.
    Então, se arruma que eu vou tratar do cafézinho.

    Agora me conta, o que é que você queria insinuar com essa coisa de cadeira de dentista?
    Ah, ah, ah. Não se esqueceu dessa?
    NÃO! Claro que não.
    Eu depois lhe conto, é uma longa história.
    Sei. Teve uma namorada dentista, tá me comparando à cadeira...
    Qué isso? Ficou boba? Não. É uma história muito diversa. Eu lhe conto esta noite.
    Ah, já tá garantindo a minha presença?
    Não. Estou apenas reclamando, mas também sei que essas noites não vão ser sempre assim.
    Pois é. A vida real.
    Não sei se é a vida real. Sei que é o tal paradoxo da liberdade. O seu caminho não é livre como o meu. E o meu só é livre enquanto não tiver compromissos...
    Mas você não é livre. Nem pensa. Nem imagina. Nem sonha. Só pode andar por aí mas nada de frescura, viu?
    Eh eh. O mosquito à volta da luz. O errante agarrado ao Km 0. Mas há uma coisa que você me poderia dizer. É se esta noite vem ou não...

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    Rodou ainda por algumas horas a reconhecer o território que exploraria pelos próximos dias.
    Estava mesmo matando o tempo. Esperando dar as horas de voltar, retornar ao 405 e esperar por ella.
    Já passavam das sete da noite quando enfiou a chave na fechadura e girou devagar para não fazer alarde. Estava voltando de um dia de jornada pelas estradas da terra de dom Bosco e, pela primeira vez, entrava no 405 sozinho. Sabia que não a encontraria ali, não naquele momento, por isso, não havia mesmo pressa de chegar.
    Foi o tempo de entrar em casa e fechar a porta e o telefone tocou. O celular...
    É você? Está aonde? Já chegou?
    Ela encheu-lhe de perguntas, estava ansiosa para saber como tinha sido o dia dele. O primeiro dos dois afastados...
    Calma menina, calma... Estou bem. Andei por aí, Perambulei por vários cantos e agora estou de volta. Acabei de chegar...
    Acabou de chegar! Mas, já está escuro... Tentei falar com você no celular mais cedo. Não atendia, dava a mensagem de que estava fora de área. Essas operadoras estão mesmo uma m...
    Calma, não se ‘avexe’ estou de volta, estou cá e louco para tomar um banho e descansar. Vou tomar meu banho e me deitar...
    Deitar!! Vais te Deitar?
    Sim por que não?
    Mas, não sabes que irei até aí?
    Como? Não me disseste nada!
    Mas, te digo agora. Meu irmão vem para cá. Vai olhar os meninos para mim. Vou depois que eles dormirem. Tu sabes bem o horário, depois das dez. Está tarde para ti?
    Como tarde? Se eu ficava até quatro, cinco, seis, oito da manhã! Quando estávamos um de casa lado das teclas. Não te lembras, já esqueceste?
    Ela riu...
    Claro que não meu amorzinho, mas, é que não quero perturbar, atrapalhar..
    Atrapalhar? Lá me vem você de novo com essas manias de achar que está me atrapalhado. Sabes bem por que estou aqui, nessa tua terra? Ou não te contei. Não te disse por que vim?
    Ela riu novamente...
    Claro que sei, claro que sei...
    Ele não viu, mas ela fez muxoxo...
    Então, toma teu banho que lá pelas dez estarei por aí...
    Agora, sou eu que pergunto, menina: não vai te atrapalhar a vida? Amanhã é dia de trabalho novamente...
    Ela interrompeu a frase dele:
    Páaara, pára com isso, sei bem o que estou fazendo.. acredite-me.
    Só mês espera, não se entregue a Morpheu antes de eu entrar...
    Beijos
    Beijos.
    Desligou o telefone...

    Não deu nem tempo de ele abrir a porta....
    Ela pulou em seus braços... Beijaram-se, olharam-se, tocaram-se
    Parecia que havia séculos que não se viam...
    Senti tanto a tua falta.. não parei de pensar em ti... Deixa-me ver-te direitinho... estás bem?
    Estás com a carinha cansada.. dirigiste muito, não foi? Olha, pega leve, não deixe que as estradas te consumam. Lembra-te que, na volta, terás ainda a mim para enfrentar....
    Disso, não esqueço nunca, minha menina.
    Sua menina...
    Beijaram-se com desespero... O desespero de quem não quer que acabe nunca. Dos amantes que se esperam, se sonham e se desejam em todos os momentos do dia. Amantes, namorados, apaixonados...
    Adoro você, sabia! Gritou ela, pendurando-se com as duas pernas enlaçadas na cintura dele...
    Ele carregou-a até o quarto...
    Amaram-se com nunca, como da primeira vez, como de todas as vezes....

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    Pousou os artigos essenciais sobre o banco como sempre fazia.
    Mapa, caderninho preto, esferográfica.
    Maço de tabaco no tablier. Ready for action.
    Ah, faltava a máquina fotográfica.
    Uma daquelas descartáveis chegava.
    E o telemóvel. Comprar um chip ou um telefone.

    Agora é que vou saber como são as estradas aqui.
    Ia andando sem norte, melhor dizendo com um rumo nordeste.
    Já tinha passado por Sobradinho. Continuou pela estrada. Planaltina.
    Circulou. Apeou-se.
    Foi pelo café, ouviu os circunstantes.
    Errou pelas ruas, com a máquina no bolso. O que menos queria era ter ar de turista.
    Sempre que andava ao deus-dará, tinha a consciência de que perdia lugares históricos.
    Isso acontecia em Portugal. Haveria de acontecer aqui.
    Nunca fora por folhetos, por propaganda, por motivos culturais. Andava ao sabor das marcas na paisagem. Às vezes, atrás de temporais. Tinha só que ter a noção das horas a que o sol de punha. Aqui mais bruscamente do que lá. A noite não lhe servia de muito para ver coisas e podia colocá-lo dentro de alguma cratera na estrada.
    Rodou de novo, agora para leste. Formosa. Mais uma vista de olhos, os locais parecem-se uns com o outros.
    Meia-volta.
    Contornou Brasília pelo nascente. DF 130.
    Depois por sul. BR 251.
    Horas de almoço.

    Depois de um repasto, não resistiu.
    Pegou no telefone.

    Brincadeira parva. Ela ficou triste e desconsolada.
    Pegou de novo no telefone.
    “Sim? Mas afinal que número é esse? Tem celular?”
    “Claro. Comprei um chip da TIM.”
    “Ah. Mas e o telefone? Tinha um?”
    “Claro. Tenho um telefone que aguenta qualquer chip GSM.”
    “E o que me vai dizer? Que afinal só volta no final da semana?”
    “Que ao cair da noite, estarei arrumando o carro na garagem do prédio. Só isso!”
    “Não vai se mandar? Por essas estradas, no tal do caracoroísmo?”
    “Não. Ficarei lá no apartamento, sairei para jantar só ou acompanhado e voltarei para descansar. Tenho dormido pouco, sabe?”
    “Ah sim? Não me diga!”
    “É. Noites perturbadas. Muito sonho. Pouco descanso.”
    “Sonho? Tem sonhado muito?”
    “Tenho. O que é pior, é o que o sonho parece bem real... fatigante, sabe?”
    “FATIGANTE?”
    “Sim, uma fadiga boa, depois de tanto sonhar acordado... e às vezes até um pesadelo em cima de mim. O pior é que fico querendo mais. Mais sonhos e mais pesadelo...”
    “Ah é? Eu lhe digo que pesadelo. Me aguarde.”
    “Ah, aguardo sim. Ficarei lhe aguardando. Agora você sabe o número. Qualquer coisa me liga. Vou rodar mais um pouco até escurecer.”

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    Ela parou o carro em frente a locadora. Se olharam. Não disseram muita coisa um ao outro. Sabiam que não havia o que ser dito. Sabiam que pouco sabiam do que seria a rotina até o próximo encontro. Sabiam que queriam uma coisa e teriam que fazer outra.
    É... Disse ela.
    É... Respondeu ele.
    Então, vamos?
    Vamos... Retomar a vida e você descobrir seus caminhos do lado de cá das teclas...
    Olharam-se. Ele passou a mão pelos cabelos dela. Fez carinho em seu rosto e ela beijou sua mão, fechando os olhos e sentindo a tristeza de ter que partir.
    Com as duas mãos, ele emoldurou o rosto dela, aproximou-a de si e beijou-lhe aboca. Beijaram-se, abraçaram-se. Apertaram-se. Não queriam se separar... não queriam....

    Ele ficou na locadora de carro e ela seguiu seu destino. Naquele momento, retomava a vida. Naquele momento, os destinos deles novamente se separavam. Aconteceu, já, no século passado, quando (sem saber) foram jogados cada um em um continente. com o script pronto para se (re)encontrarem no dia em que as teclas aproximariam as distancias e tornaria o mundo separado por um clique apenas.
    Ela sentiu um vazio, uma saudade (já) contida do futuro que não sabia como seria. Aliás, sabia sim. Sabia que parte dos sonhos cedia, naquele momento, lugar à realidade. Era a triste constatação de que sonhos são apenas sonhos. Podem ser vividos, realizados, mas não são tão perenes. Há sempre a hora em que o despertados toca e somos acordados.
    Ela seguiu direto para o trabalho. Chegou lá ainda sob os efeitos do fim-de-semana. Ainda estava fora da realidade. Ainda sentia o cheiro das noites juntos, o sabor dos beijos, a ternura dos toques. Ainda tinha consigo os momentos...
    Bom dia...
    Bom dia...
    Seguiu em frente, foi até a sua mesa e começou a pensar...
    Ligou o computador. Olhou a hora: 9h da manhã. Pensou que ainda teria o dia inteiro até que se encontrassem de novo. Sentiu saudades. quis ligar. Lembrou que ele não tinha celular. Teria que resolver isso imediatamente. Ele tinha que ficar localizável. Como não pensou nisso antes? Como deixou ele solto, nas terras do Planalto Central, sem nenhum número de comunicação? Sentiu um desespero. Queria falar com ele e não podia. Teria que esperar... Resignou-se...
    Aos poucos, o dia foi tomando o seu rumo natural. Ela foi se envolvendo com seus roteiros, suas edições, suas matérias. Enfim, dia normal...

    Alô....
    Alô! aonde vocês está. São quase três horas!
    es horas da tarde e só agora você me liga? O que houve? Está bem? Já almoçou?
    Calma... calma, menina.. Riu.
    Estou bem, está tudo bem, aluguei o carro e já andei por alguns caminhos desta cidade. Estou aqui na saída sul da cidade. Acho que vou pegar a estrada um pouco. Vou sentir os caminhos dessa sua terra. Não sei se volto hoje. Se ficar tarde, durmo em alguma cidade. Te dou notícias...
    Como assim? Como vai sair assim? Num volta hoje? Não vamos nos ver hoje?
    Calma menina, estarei sempre em contato. Ligo da próxima parada. ADORO VOCÊ!!!
    E, desligou....

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